Os Cães são Liberais

Posted: 10 10UTC Maio 10UTC 2011 in Poesia devaneio ensaio Por: Hélio Aguiar

BREVE CONSIDERAÇÕES/VISÕES DA PEÇA PÓLVORA E POESIA
Por: Hélio A.

Ao entrar no teatro, o guitarrista que fazia a trilha sonora da peça, fumava, entrando num clima rock, os atores já se encontravam no palco, já no limiar dos personagens. O cenário e o teatro combinava com o tom do Século XIX, com um clima de taverna – e sacral também, pelo teatro ser numa antiga igreja da Barroquinha.

Na peça, envolve um clima trágico entre Rimbaud e Verlaine, também a questão implícita do destino libertino do poeta Rimbaud. Do outro lado, a inconstância de Verlaine diante de sua esposa Mathilde, dividida pela sua paixão pelo poeta maldito. No começo, o ator Caio Rodrigues (Paul Verlaine), demora um pouco pra encarnar o personagem, no caso, de uma forma visceral e dionisíaca. O ator peca por parecer estar mais na atmosfera apolínea, na qual, difere do seu personagem; seria a outra forma a mais correta, de incorporar o poeta, apesar que, o poeta Paul Verlaine ter um comportamento mais polido que Rimbaud e exigir um ethos mais apolíneo. Diante desse polimento excessivo, deixemos para o Verlaine em “sua vida real”. No palco esperamos vida, emoções fortes e não polidez em demasias.

Não demora muito do ator esquentar, entrar no clima dionisíaco que o teatro canta, pois o próprio desenrolar da trama exige o esforço do ator pra se lançar no abismo de paixão e loucura, que a história junto ao poeta Rimbaud ajuda muito com sua presença embriagante, “trágica” e caótica na vida de Verlaine; o influenciando, abrindo sua mente com poesias mais livres e soltas, até contrariadamente, o poeta maldito falando sobre o amor à sua maneira. Verlaine entra na dança conforme o Rock’n Roll do poeta, e enlouquece de desejos e paixões por seu amigo, acompanhado dos envolventes e consistentes toques de guitarra da trilha sonora da peça, que enriquece muito o cenário por sinal.

O que me chamou atenção, na releitura da história dos dois Poetas em Pólvora e Poesia, é que mostra Verlaine em outra roupagem, um Verlaine mais ousado, diferente de outras reproduções, e até da própria fonte da literatura que passa ao leitor, que Verlaine seria uma grande presa de Rimbaud – e vítima de toda a história. Nesta peça ao contrário, coloca Verlaine em outra posição, um Verlaine que no desenrolar da história vem a ser mais visceral, vingativo, e às vezes é o próprio provocador de toda esbórnia entre eles, mesmo sendo o princípio de sua embriaguês e loucura, a paixão e a beleza de Rimbaud.

A peça não tem a emergência de ter um personagem principal, pois, as genialidades se confundem. A ausência da personagem de Mathilde é de fato simbólica, na peça não passa de um fantasma que atormenta Verlaine, e essa ausência foi muito bem colocada no palco – Verlaine conversa em solilóquios esquizofrênicos durante a peça, com seu duvidoso amor por Mathilde, junto, sua amizade e amor por Rimbaud, torna a trama entre os dois poetas, absoluta e inconsequente.

Excesso seria a palavra mais correta para definir este caso/peça, e sentir, literalmente o cheiro de “Pólvora e Poesia” no ar do teatro Baiano.

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