Os Cães são Liberais

BREVE CONSIDERAÇÕES/VISÕES SOBRE A PEÇA PÓLVORA E POESIA
Por: Hélio Aguiar

Ao entrar no teatro, o guitarrista, que fazia a trilha sonora da peça, fumava, entrando num clima rock, os atores já se encontravam no palco, já no limiar dos personagens. O cenário e o teatro combinavam com o tom do Século XIX, com um clima de taverna, e sacral, pelo teatro ser numa antiga igreja da Barroquinha.

A peça envolve um clima trágico entre Rimbaud e Verlaine, também a questão implícita do destino libertino do poeta Rimbaud. Do outro lado, a inconstância de Verlaine diante de sua esposa Mathilde, dividida pela sua paixão pelo poeta maldito. No começo, o ator Caio Rodrigues (Paul Verlaine), demora um pouco para encarnar o personagem, no caso, de uma forma visceral e dionisíaca. O ator peca por parecer estar mais na atmosfera apolínea, na qual se difere do seu personagem. Esta seria a primeira forma mais correta de incorporar o poeta, apesar de que, o poeta Paul Verlaine tem um comportamento mais polido que Rimbaud e exige um ethos mais apolíneo. Diante desse polimento excessivo, deixemos para Verlaine em “sua vida real”. No palco esperamos vida, emoções fortes e não polidez em demasia.

Não demora muito do ator esquentar, entrar no clima dionisíaco que o teatro canta, pois o próprio desenrolar da trama exige o esforço do ator pra se lançar no abismo de paixão e loucura, que a história junto ao poeta Rimbaud ajuda muito com sua presença embriagante, trágica e caótica na vida de Verlaine; o influenciando, abrindo sua mente com poesias mais livres e soltas, até contrariadamente o poeta maldito falando sobre o amor à sua maneira. Verlaine entra na dança conforme o Rock’n Roll do poeta, e enlouquece de desejos e paixões por seu amigo, acompanhado dos envolventes e consistentes toques de guitarra da trilha sonora da peça, que por sinal enriquece muito o cenário.

O que me chamou atenção na releitura da história dos dois poetas em Pólvora e Poesia, é que mostra Verlaine em outra roupagem, um Verlaine mais ousado, diferente de outras reproduções, e até da própria fonte da literatura, que Verlaine seria uma grande presa de Rimbaud e vítima de toda a história. Nesta peça, ao contrário, Verlaine é colocado em outra posição, um Verlaine que no desenrolar da história vem a ser mais visceral, vingativo, e às vezes é o próprio provocador de toda esbórnia entre eles, mesmo sendo o princípio de sua embriaguês e loucura, a paixão e a beleza de Rimbaud.

A peça não tem a emergência de ter um personagem principal, pois as genialidades se confundem. A ausência da personagem de Mathilde é de fato simbólica, na peça não passa de um fantasma que atormenta Verlaine, e essa ausência foi muito bem retratada no palco – Verlaine conversa em solilóquios esquizofrênicos durante a peça, com seu duvidoso amor por Mathilde, juntando sua amizade e amor por Rimbaud, fazendo da trama entre os dois poetas absoluta e inconsequente.

Excesso seria a palavra mais correta para definir este caso/peça, e sentir, literalmente o cheiro de “Pólvora e Poesia” no ar do teatro Baiano.

Dorian Gray

ABSTRAÇÕES EM TORNO DO FILME DORIAN GRAY
(Declarações Poéticas de um Crime sem Perdão)
Por: Hélio Aguiar

Matei o corpo do meu criador, o grande artista e escultor da minha juventude.
Banhei-me com o seu sangue velho, sujo, na minha face juvenil, portanto, agora, tomo um bonde com um olhar de criança, junto à minha alma anciã, com experiências de outras décadas.

Tudo é novo e velho, o azul já não é mais o mesmo, as cores falam em outras línguas para mim – como elas sofressem a mesma transmutação da minha alma. Mas é só o meu olhar, meu olhar dúbio sobre às cores, que um deus brincalhão me deu. No entanto, Aquela criança alí do lado olha pro céu, o azul que ela enxerga, é como se fosse único, a cor do primeiro olhar, virgem, enquanto eu olhando as cores em duas.

É a maneira do universo falar comigo agora. Um azul pro bem e um azul pro mal. Um céu do paraíso e outro céu do inferno. Um amor e uma morte, que nem tenho culpa desta maldição que o destino me deu desde criança. Mato a mim mesmo, e por fim, rejuvenesço na obra do meu criador.

Ilusão

A ilusão as vezes é necessária, estamos a todo momento nela sem ao menos percebermos. É a poesia para o cético, é o brinquedo da criança e a reza daquele quem crer. A ilusão é um fenômeno, um efêmero devaneio. É a metafísica para os filósofos, também a rara chuva no sertão. Especial por ser rara, por ser somente uma vez durante o ano, mas é chuva. Que faz germinar algumas sementes e, também, traz alegria durante o seu espetáculo primaveril.

Ilusão é tudo que é raro, efêmero e não podemos tocar, nem guardar em nossas lembranças. É uma estrela cadente riscando o céu.