SIGNOS, CORPOS E INTERRUPÇÕES

Meditações acerca da peça Arbítrio
Por Hélio Aguiar

Quem chega na sessão das 18h do espetáculo Arbítrio é privilegiado no início da peça com uma trilha sonora espontânea, não, não é a trilha sonora do espetáculo, mas a trilha sonora da rotina normal da região do Largo 2 de Julho. Os sinos das igrejas que rodeiam o bairro ecoam, principalmente na rua Areal de Cima, onde acontece o espetáculo: localizado na antiga Casa Preta nº40, na atemporal, velha e “triste cidade” histórica de Salvador.

Depois do sino ecoar, à maneira medieval, fomos convidados a adentrar no casarão antigo – esperei 10 minutos depois do sino da igreja tocar, mas o espetáculo Arbítrio não foi tão católico no sagrado horário da Ave Maria; nem ao sino das igrejas, no que deu um intervalo de 10 minutos para eu ir tomar um café na padaria na esquina. Os personagens “shakespearianos” estavam esquentando em latim, alemão, iorubá, ou outras ladainhas dionisíacas para o início da peça – para salvar nossas almas da ignorância do dia a dia e nos lançar na sorte de nossos Arbítrios diante da encenação.

Já dentro da Casa Preta, tendo sido convidado muito gentilmente por uma das personagens, em uma das primeiras salas da casa onde acontece o primeiro ato, me senti realmente um convidado na casa de uma família, muito estranha por sinal; parada no tempo; altamente religiosa e, à parte de tudo e de todos. Como louva Jim Morrison na música The Spy, o espectador é convidado a ser um verdadeiro “espião na casa do amor” e participar virtualmente das cenas.

Na família/casa, pouco se vê a luz do sol e a beleza do dia, do que está fora. Todos eles estão submersos no metafórico “Mito da Caverna” de Platão, onde o “Mundo das Ideias” e da perfeição são os fervores religiosos, a fé, os signos – e o cumprimento das ordens de outrora do patriarca morto.

A ideia da liberdade incomoda bastante o espectador em algumas cenas, pois não há liberdade numa “caverna” de uma família sempre em contradições e na busca do poder sobre o outro e suas interdependências. Estamos no momento da cena, participando da agonia dos familiares, sofrendo com eles, virtualmente, é claro.

No entanto, o ponto instigante e inovador do espetáculo é que a trama foge da narrativa normal linear, os diálogos não têm uma interpretação clara desenhada, nada muito palpável – vai muito além do tradicional modelo de comunicar ao espectador, ou, sendo mais claro, o ato não é explicado, não é uma história “recortada”, porém representada ao modo do espetáculo Arbítrio. Cabe ao “espião na casa do amor” entender das sutilezas e propostas da dramaturga Bárbara Pessoa e do diretor artístico Diogo Pinheiro.

Como diz um personagem em uma das cenas: ESTÃO TODOS EQUIVOCADOS.

Só assistindo para entender o equívoco. “Ou não” Entender.