Crianças Invisíveis

UM OLHAR DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E SUAS RELAÇÕES SOCIAS E FAMILIARES

Por: Hélio Aguiar

“A natureza precede o homem, ela é a única realidade, solo sobre o qual nós homens, produtos nós mesmos da natureza, donde brotamos e crescemos”.

Este pensamento que dá início ao texto, vindo da literatura do materialismo histórico de Marx, é o ponto de partida ao seu amplo e complexo objeto de estudo que é a sociedade e do que vem a ser as relações sociais de um sujeito. Dá início ao estudo do indivíduo diante da natureza e sua relação com o meio natural e social.

A psicologia do desenvolvimento em sua construção histórica e, em seu aperfeiçoamento enquanto prática e pesquisa, principalmente em Vygotsky no estudo do desenvolvimento do indivíduo/criança em seus poucos anos de vida, percebe-se que o primeiro contato social da criança é com o outro, com o adulto, pai ou mãe especificamente. Estes são os que ajudam o bebê a suprirem suas necessidades básicas de sobrevivência.

No filme Crianças Invisíveis (All the Invisible Childrens, 2005), analisando seu contexto social, sob a ótica da psicologia do desenvolvimento podemos perceber que a realidade das crianças e todas elas são fruto do meio onde convivem, principalmente no seio familiar que as crianças mantém o seu primeiro contato social, e passam a adquirir uma moralidade e uma conduta particular influenciada de sua família, logo, refletindo esses comportamentos na sociedade. O filme nos instiga à esta reflexão sobre o desenvolvimento e educação das crianças e a influência da sociedade e do corpo familiar/adulto sobre elas.

Em alguns pontos específicos do filme, a criança em seu desenvolvimento, percebe-se a questão da “alteridade recíproca”, entre o adulto e a criança. Tanto a criança, quanto o adulto, buscam significações no outro, deixando “claro” no filme, esta relação de troca. Nesta troca, por vezes os adultos assumem uma responsabilidade sobre a criança, que a faz por meio de uma coação/poder sobre o indivíduo em sua categoria, e, em sua tenra idade (fase identitária). No entanto, todas essas crianças estão inevitavelmente submetidas a essas leis que vêm de cima para baixo e que também rotulam esta fase da vida da criança completamente dependente do adulto, a criança neste contexto são os “sem voz”.

Em Crianças Invisíveis, em suas cenas simbólicas, demonstra, claramente, este “respeito e submissão” que as crianças têm para com os adultos, e que, por muitas vezes os mesmos (adultos), abusando deste poder de uma forma negativa sobre seus filhos.
As “realidades das cenas” têm a questão de demonstrar este lado negativo do adulto com a criança, trazendo a discussão/reflexão acerca deste descuido que os pais tem para com seus filhos, muitas vezes frustrando-os e levando-os a situações sociais fora dos “padrões normais” do comportamento, inserindo esses numa sociedade moderna e caótica.

A pergunta, a questão, o meio, que implica o desenvolvimento desse sujeito/criança/infante diante das vastas variáveis que os influenciam, no meio do corpo social, é exatamente a complexidade, as variedades e seus comportamentos diferentes encontrados nas camadas sociais. Demonstrado no último filme, provoca muito bem esta meditação; quando conta a história de duas crianças em situações diferentes, seus diversos tipos de conduta devido à realidade social e costumes/vivências particulares de cada personagem.

Sobre o olhar da psicologia do desenvolvimento acerca deste tema e do enredo do filme, meditamos sobre a nossa responsabilidade profissional, e como compreendermos todas estas complexidades nos meios diferentes sociais. Podemos também, colocarmos diante dessas realidades e ficarmos ciente destas implicações, como, a partir da realidade e suas variáveis termos uma prática mais assertiva com suas demandas diversas de paciente na “sociedade complexa”. Cabe esta questão ao psicólogo(a), desenvolvimentista, compreender o todo que engloba a particularidade de cada indivíduo, para uma prática com mais sucesso e efetividade no problema do desenvolvimento do sujeito nessa fase crítica da vida.

Jejum

Preferi uma xícara de café ao invés do almoço, ficarei assim, em semi-jejum, com a leveza de um devoto alcançando sua glória espiritual. Consumindo apenas coisas leves, como a lembrança do nosso primeiro olhar, das nossas mãos que se encontraram numa noite inesperada e depois nossos corpos medrosos pelo novo, enfim, se abraçaram e consumiu o medo do novo do outro, até tocar a boca nova do outro e o medo desaparecer. Foi doce, quente, leve e novo.