Polifonia interrompida – Análise do filme Ninfomaníaca Vol l

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Por: Hélio Aguiar

O que menos me interessa investigar neste texto é o sexo, difícil vai ser fugir do assunto, já que o título do filme nos instiga à tal investigação. Pretendo neste texto procurar o amor perdido em Joe, o Cantus Firmus que tanto faltou na polifonia dela — deixo para os mais freudianos escrever, analisar e tratar do assunto com mais profundidade e ciência nesse campo complexo que é a sexualidade, principalmente a sexualidade infantil, que está explicitamente no filme, que aparece na tenra idade de Joe.

No começo do filme, Joe sai com sua amiga B para fazer uma competição de quem transaria mais numa viagem de trem, achei que Lars Von Trier tinha apelado para um filme recreativo e exibicionista de cenas de sexo, pensei em até abandonar o filme se continuasse com aquele enredo, mas, como já tinha assistido outros filmes do diretor e não tinha me decepcionado, imaginei que seria bom como os outros, que em algum momento eu iria me surpreender, resolvi apostar e continuar assistindo, senti que alguma coisa iria aproveitar, alguma coisa estava oculta diante da temática barata e de varejo que é o sexo.

O que torna o enredo mais interessante e maduro, é o encontro de Joe com o senhor Seligman, onde ela faz uma retrospectiva e associações da sua vida, completamente arrependida do seu passado. Nesse encontro, ao que todos ao menos imaginou, que seria mais uma cena de sexo com um senhor de mais idade, não acontece o que seria de mais previsível para o filme, Joe se sente acolhida na casa do ancião que te ajudou após um acidente que ela não revela o que de fato aconteceu, ela só diz que foi a culpada, e que ela é um ser humano completamente ruim. Em sua casa, Seligman se mostra bastante interessado na história de Joe, mas ela acha que ele não entenderia sua história um tanto complexa e carregada de tabus, que era a sua sexualidade exacerbada. No entanto, num ponto da conversa com Seligman, ela se sente confortável para contar sua história através de uma metáfora, da isca de mosca que o velho Seligman tinha pendurado na parede do quarto, que tanto se vangloriava de ter pescado um peixe com ela um dia. Joe, encontra aí, uma forma de fazer uma comparação da isca com sua vagina, que explorou muito cedo na sua infância, a partir daí uma longa conversa se desenrola com o ancião erudito, Joe conta a sua história de muitos “peixes” pescados com sua isca genital na sua lagoa íntima da luxúria.

É muito fácil imaginarmos que uma pessoa viciada em sexo, pouco importa o amor no ato, no filme fica claro isso para quem assistiu, o vício ocupa todo o espaço do amor, tornando a figura do sexo mais importante — a luxúria, o desejo, a pulsão desenfreada, é o objetivo principal de Joe, uma busca incansável pelo prazer. Joe e sua amiga B chegam a montar um clube, “O pequeno rebanho”, declarando guerra ao amor, e defendendo somente a busca pelo prazer.

O que mais me comoveu diante do filme, foi essa repulsa que Joe tinha diante do amor, a falta de sensibilidade que a jovem tinha com seus parceiros. Surge aí algumas interrogações que nos deixa angustiado durante o filme: porquê ela não consegue senti amor? O que foi que comprometeu e influenciou o seu comportamento futuro? O que a traumatizou tanto, já que ela nunca foi abusada quando criança?

Esse vazio toma conta da personagem durante todo o filme (vol I), porém, temos a relação dela com o pai, podemos notar que o único amor verdadeiro que ela teve e sentiu realmente, foi o amor que ela sentia pelo seu pai durante sua infância e juventude, (Não estou aqui propondo analisar sob o clichê dos complexos edipianos, mas do amor mesmo, normal e saudável, de pai para filha e vice-versa), não houve outro amor que a recompensou tanto quanto do seu pai. Já o seu primeiro namorado, Jerôme, com quem ela perdeu a virgindade de uma forma completamente mecânica, dava mais importância a sua primeira moto do que a primeira transa com ela, e quando ela o reencontrou depois da morte de seu pai, fez sexo novamente com ele, ela disse no final do sexo que não sentia mais nada, nem amor nem tesão, estava completamente frígida. É a partir daqui que talvez tenhamos a resposta para algumas interrogações que levantei durante o texto, do motivo que ela não sentia mais nada durante o sexo. A primeira experiência é clara, levando em consideração que a sua primeira vez com Jerôme não houve emoção alguma. A segunda, ainda mais polêmica e sintomática (quando ela o reencontra depois da morte do seu pai), o amor e suas sensibilidades não sobreviveram por causa da não permanência paterna, talvez aí ela tenha perdido toda a fonte do amor vivo e de referência, pois o nosso inconsciente é capaz de manipular às nossas mais espontâneas vontades.

Como escrevi no início do texto, não vou procurar respostas na questão sexual, mesmo sendo a temática principal do filme, pois, ao meu ver, vejo o sexo em Joe não sendo nada mais além que um sintoma completamente complexo e patológico, difícil de compreender, já que ela ao invés de chorar na morte do pai, ela tem uma espécie de orgasmo, sendo que a morte em si não tem pulsão de vida alguma para ela fantasiar e sentir alguma pulsão sexual diante deste fenômeno.

O Direito ao Delírio – Eduardo Galeano

“Mesmo que não possamos adivinhar o tempo que virá, temos ao menos o direito de imaginar o que queremos que seja.
As Nações Unidas tem proclamado extensas listas de Direitos Humanos, mas a imensa maioria da humanidade não tem mais que os direitos de: ver, ouvir, calar.
Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar?
Que tal se delirarmos por um momentinho?
Ao fim do milênio vamos fixar os olhos mais para lá da infâmia para adivinhar outro mundo possível.
O ar vai estar limpo de todo veneno que não venha dos medos humanos e das paixões humanas.
As pessoas não serão dirigidas pelo automóvel, nem serão programadas pelo computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem serão assistidas pela televisão.
A televisão deixará de ser o membro mais importante da família.
As pessoas trabalharão para viver em lugar de viver para trabalhar.
Se incorporará aos Códigos Penais o delito de estupidez que cometem os que vivem por ter ou ganhar ao invés de viver por viver somente, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca.
Em nenhum país serão presos os rapazes que se neguem a cumprir serviço militar, mas sim os que queiram cumprir.
Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida à quantidade de coisas.
Os cozinheiros não pensarão que as lagostas gostam de ser fervidas vivas.
Os historiadores não acreditarão que os países adoram ser invadidos.
O mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas sim contra a pobreza.
E a indústria militar não terá outro remédio senão declarar-se quebrada.
A comida não será uma mercadoria nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos.
Ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão.
As crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo, porque não haverá crianças de rua.
As crianças ricas não serão tratadas como se fossem dinheiro, porque não haverá crianças ricas.
A educação não será um privilégio de quem possa pagá-la e a polícia não será a maldição de quem não possa comprá-la.
A justiça e a liberdade, irmãs siamesas, condenadas a viver separadas, voltarão a juntar-se, voltarão a juntar-se bem de perto, costas com costas.
Na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental, porque elas se negaram a esquecer nos tempos de amnésia obrigatória.
A perfeição seguirá sendo o privilégio tedioso dos deuses, mas neste mundo, neste mundo avacalhado e maldito, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro.”