Quando o virtual torna-se quase real – Análise do filme “Ela”

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Por: Hélio Aguiar

Um filme que era para nos surpreender com suas avançadas tecnologias, não chega a nos surpreender tanto, já que a realidade exposta no filme não está num futuro muito distante, o diretor cria uma “realidade” mais sofisticada e parece fazer uma alusão ao que de fato está ocorrendo na sociedade contemporânea, no que diz respeito ao avanço das tecnologias e as extensões do ciberespaço. É bem exposto também, no cenário do filme, a tecnosfera futurista, onde tudo é um mimetismo do humano, onde só há espaço para a artificialidade que se confunde com o mundo real.

O filme passeia pela vida de um escritor solitário, que se apaixona pela voz de um software avançado de inteligência artificial. Theodore, personagem principal, se encontra num estado submerso de ilusões, se vê dividido entre suas lembranças do passado com sua ex-mulher, Catherine, e o seu presente com Samantha (a voz do software), que possui qualidades e sentimentos humanos capaz de amar, sofrer, ter intuições etc. A relação de Theodore com o software chega a causar até um certo incômodo, vendo-o na maior parte do seu tempo absorto no mundo virtual, chegando as vezes a trocar uma pretendente real pelo relacionamento artificial com Samantha.

Numa das cenas, Theodore conversando com sua amiga Amy, eles questionam juntos o fato do relacionamento dele com o software ser real ou somente virtual, para fomentar ainda mais a dúvida dessa dualidade, sobre o que é real e virtual, Pierre Lévy afirma que: (…) O Virtual é um espaço real. Naquele espaço significa existir, no entanto, a virtualização comprova que o fato de não estar lá não significa necessariamente que não exista.

Mesmo Pierre Lévy considerando o espaço virtual como real, nessa sua visão mais teórica, não precisamos tomar a frase no sentido literal e vivermos somente para o mundo virtual, pois podemos perceber o quanto é sintomático o que acontece no filme, a migração de Theodore do mundo real para o mundo virtual. Catherine, sua ex-mulher, chega a dizer que ele sempre quis uma esposa não enfrentando os desafios da realidade e, também, não consegue lidar com emoções reais. O filme nos leva a pensar sobre o que estamos vivendo hoje em dia, esse refúgio que procuramos para fugir da realidade. Será que todos nós não estamos trilhando o mesmo caminho solitário de Theodore, fugindo das emoções e desafios do convívio real e comum da vida?

Escolha e liberdade – Análise do filme “Azul é a cor mais quente”

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Por: Hélio Aguiar

Um filme um tanto labiríntico e tenso quanto a descoberta de uma identidade sexual numa adolescente, parece que não agrada o público gay, pois a personagem principal (Adèle), não completa o seu destino como lésbica. É bem notório isso no filme, mesmo quando ela oficializa o seu namoro com Emma, ela ainda parece não está vivendo em sua pele, deixando para o espectador uma leve sensação de superficialidade, não passando nada mais de uma adolescente curiosa por novas descobertas no campo da sexualidade.

Numa parte do filme, o diretor foi muito feliz ao pontuar a questão da escolha da definição do sujeito quanto à sua sexualidade, quando Emma, no seu primeiro encontro com Adèle, cita uma frase de Sarte: “A existência precede a essência”, ou seja, nascemos, existimos, para depois construirmos nossa essência e, essa definição da nossa essência se dá pelas escolhas que fazemos na vida, ela quis dizer que não nascemos predestinados a ser gay ou hétero. Essa frase suou de forma muito libertadora no enredo do filme e na vida de Adèle, pois, Emma, abriu as portas do livre arbítrio para Adèle, na qual antes o preconceito, os tabus e a moral vigente da sociedade estavam implícito nela.

O filme caracteriza a sexualidade de Adèle como um tanto misteriosa, durante sua jornada ela se vê dividida entre o seu lado hétero e gay. O filme termina deixando o espectador com algumas perguntas, pois parece que Adèle ainda não se definiu quanto à sua sexualidade, demonstra também que a única mulher com que ela se identifica é Emma, deixando somente algumas pistas por quê ela não se apaixona por uma outra mulher, pois, Emma, foi aquela que apresentou não só o mundo gay para Adèle, mas também ajudou na sua passagem para a vida adulta, foi aquela que assumiu o papel de amante e de mestra em sua vida.

Talvez o que perturbe muito o espectador, tanto o gay quanto o hétero, seja um final sem muita expectativa e sem uma escolha definida quanto à sexualidade da personagem principal, deixando o final feliz para Emma, bem mais resolvida sexualmente que Adèle.